A CONTRACULTURA E O NOMADISMO NA LITERATURA DE AL BERTO
Al Berto; Nomadismo; Contracultura; Contemporâneo.
Nesta tese, investiga-se a literatura do poeta lusitano Al Berto, pseudônimo de Alberto Raposo Pidwell Tavares (1948-1997), a partir da análise das narrativas Projectos 69 (1972), O medo – trabalho poético (1974-1986), Apresentação da noite (1985), Lunário (1988), O anjo mudo (1993) e Diários(2013). Busca-se entendê-las sob a perspectiva do desvio comportamental, da cultura e da literatura tradicional. O estudo dessas narrativas tem como propósito sinalizar o nomadismo em Al Berto no que tange ao influxo na contracultura. A maior paixão do poeta é escrever compulsivamente e viajar para lugares desconhecidos. Obra e vida se amalgamam. Al Berto é uma personalidade estética transeunte, sem fixidez. A recusa às normas estabelecidas torna-o transgressor e radical. A rebeldia do poeta é expressa através da literatura de viagem. Um andarilho que pertenceu a uma geração de poetas pós-74, período final da ditadura salazarista em Portugal. A literatura al bertiana é expressão underground do desterritorializado, criando fissura na literatura tradicional canonizada. Nas narrativas como Projectos 69, primeiro trabalho de escritura artística do poeta, envolvem-se desenhos e escritas surreais. O medo, são perceptíveis traços errantes que remetem ao estilo ficcional do autor-narrador em constante trânsito. Na obra Apresentação da noite, trata-se de um texto performático que apresenta passagens notívagas e de âmbito marginal. No romance Lunário, pode-se perceber o autor-narrador-personagem como projeto antissistema, nômada e também metamorfose, o corpo sem órgãos, sujeito múltiplo. Nesta obra, autor-narrador-personagem se funde com outros personagens. Já em O anjo mudo, são textos de viagem que confundem seu gênero literário - entre poesia, prosa e crônica - e não seguem uma ordem cronológica. E Diários, livro póstumo, trata de uma tentativa de escrita autobiográfica, escrita de si. Aqui encontram-se variadas anotações de Al Berto - de viagens, paixões, mas também dos momentos tenebrosos de solidão. A errância em Al Berto, e/ou em sua respectiva literatura, expressa liberdade, sem parada fixa. Está sempre em busca do eu lírico e de experienciar o outro. A literatura al bertiana é híbrida, não autoritária e em constante deslocamento. Como fundamentação teórica acerca da escrita autobiográfica de Al Berto, traça-se um diálogo entre Arfuch (2010), Freitas (1999), Noronha (2023), Sibilia (2008), dentre outros, engendrando discussões sobre um eu errante autobiografado no espaço-tempo contemporâneo.