Efeitos farmacológicos de compostos híbridos de anandamida e celecoxibe em modelos experimentais de inflamação e dor
anandamida; celecoxibe; hibridização molecular; COX-2; sistema endocanabinoide; inflamação; dor; estudo pré-clínico.
Dor e inflamação estão presentes em diversas doenças crônicas de alta prevalência e impactam intensamente a qualidade de vida. Os analgésicos e anti-inflamatórios disponíveis apresentam limitações de eficácia e podem induzir efeitos adversos, especialmente em uso prolongado, o que reforça a necessidade de novas estratégias terapêuticas. Nesse contexto, a hibridização molecular permite combinar farmacóforos distintos em uma única molécula, buscando otimizar eficácia e segurança. Neste estudo, foram avaliados compostos híbridos inéditos derivados da anandamida, um endocanabinoide, e do celecoxibe, um inibidor seletivo da COX-2. Inicialmente, quinze híbridos foram avaliados in vitro, no ensaio de macrófagos estimulados com LPS (500 ng/mL) + IFN-γ (5 ng/mL). A viabilidade celular avaliada por Alamar Blue (1,9–1000 µM) indicou baixa citotoxicidade para a maioria dos compostos, enquanto a inibição da produção de óxido nítrico pelo método de Griess demonstrou potencial atividade anti-inflamatória para doze híbridos. Com base nos valores de CC₅₀ e IC₅₀, os compostos LQFM301, LQFM305 e LQFM297 foram selecionados para os estudos in vivo por apresentarem baixa citotoxicidade (CC₅₀ > 1000 µM) e inibição potente de NO (IC₅₀ = 2,50; 2,46 e 2,60 µM, respectivamente). Em camundongos, a atividade antinociceptiva foi investigada nos testes de formalina, retirada de cauda e placa quente. Tanto no teste da formalina, quanto nos modelos térmicos, os composto induziram efeitos antinociceptivos. Estudos in silico frente aos alvos CB1 (PDB: 5U09), CB2 (PDB: 5ZTY) e COX-2 (PDB: 3PGH) demonstraram interações proteína–ligante energeticamente favoráveis, com melhores escores para COX-2 em comparação a CB1 e CB2. O composto LQFM301 apresentou os valores mais favoráveis de interação. No modelo de inflamação induzida por CFA, LQFM301 reduziu a alodinia mecânica e o edema de pata no pré-tratamento, reverteu parcialmente a alodinia já instalada no pós-tratamento agudo (25 mg/kg) e promoveu redução sustentada do edema até 24 h, com eficácia semelhante ao celecoxibe e maior duração de efeito. O tratamento diário com LQFM301 (25 mg/kg/dia por 21 dias), atenuou de forma sustentada a alodinia mecânica e reduziu o edema com maior eficácia que o celecoxibe. A avaliação de toxicidade após 21 dias de tratamento não evidenciou alterações hematológicas ou bioquímicas relevantes, nem alterações histopatológicas em estômago, fígado e rins no grupo tratado com LQFM301, enquanto o celecoxibe induziu lesões renais compatíveis com nefrotoxicidade. Em conjunto, os resultados indicam que o LQFM301 apresenta perfil anti-inflamatório e antinociceptivo robusto, com perfil favorável de segurança em comparação ao celecoxibe, justificando seu potencial como candidato à fármaco, e o avanço das pesquisas para aprofundamento da caracterização farmacológica.