Ressentimento teogônico e criação artística em Albert Camus:
o não e o sim da revolta metafísica
Albert Camus, Revolta Metafísica, Modernidade, Criação Artística
Este trabalho contribui aos estudos camusianos ao explorar a complexidade da revolta metafísica
por meio da taxonomia de seu sim e não, destacando seus aspectos éticos, estéticos, históricos e
metafísicos. Inicialmente, analisamos o significado do sim e do não como movimentos
intrínsecos à revolta e sua relação com a criação de valores pela imposição de limites oriundos da
experiência humana. Em seguida, a partir do comentário de Camus à Scheler, distinguimos a
revolta camusiana do ressentimento: este, puramente reativo e destrutivo; aquela, articulando
uma ética solidária baseada na razão e sensibilidade. Paralelamente, avançamos na literatura
especializada ao explicitar o ocidentalismo hegeliano de Camus na concepção histórica da
revolta e, por meio das categorias deleuzianas, demonstramos que o absurdismo camusiano
difere das filosofias niilistas, propondo superá-las. Para uma melhor compreensão da metafísica
na teoria da revolta, comparamos instrumentalmente a epistemologia camusiana à teoria do
conhecimento kantiana e explicitamos a distinção entre a face empírica da revolta e seu aspecto
metafísico. Posteriormente, introduzimos o conceito de “ressentimento teogônico” para
identificar Não da revolta metafísica, caracterizado pela negação do absurdo e pela tensão entre a
rejeição do mundo criado e a dependência da transcendência divina. Filósofos e escritores como
Epicuro, Lucrécio, Sade, Milton, Baudelaire e Dostoievski nos auxiliaram na análise dos perigos
das revoltas mal direcionadas. Por fim, integralizamos a pesquisa por meio da organização das
bases da teoria da arte camusiana presente em seu ensaio da juventude Arte e comunhão (1931) e
nas ideias expostas no seu ensaio maduro O homem revoltado (1951): nesta análise, verificamos
como as mais diversas linguagens artísticas (arquitetura, música, escultura, pintura, literatura e
teatro) dialogam com a teoria geral da arte enquanto revolta proposta por Camus. O que
evidenciamos, para destacar a natureza do Sim, é que para Camus a arte é uma exigência
metafísica de unidade, em que os homens, recusando o mundo como ele é, sem desejar fugir
dele, exaltam e nega o real simultaneamente, destacando o papel da arte como uma forma de
afirmação e superação do absurdo. Aqui, a criação artística surge como uma fabricadora de
universos onde o homem pode reinar e efetivamente conhecer