SOLITÁRIAS? MULHERES NEGRAS DOCENTES NA UFBA ENTRE A PRESENÇA E O ISOLAMENTO NA RELAÇÃO SOCIAL DE TRABALHO SOB A POLÍTICA DE COTAS NO SERVIÇO PÚBLICO (2014–2024)
trabalho docente; solidão; mulheres negras; ações afirmativas; Universidade Federal da Bahia.
Nesta dissertação, analiso a relação social de trabalho de mulheres negras docentes na Universidade Federal da Bahia (UFBA) entre os anos de 2014 e 2024, período de vigência da Lei nº 12.990/2014. Investigo como a política de cotas no serviço público, ao incidir sobre o magistério superior, enfrentou ou reproduziu elementos estruturais da solidão, a qual compreendo não como experiência individual, mas como categoria analítica e afeto políticohistórico forjado na intersecção das opressões de raça, gênero e classe. Na fundamentação teórica, articulo o Feminismo Negro, o Marxismo Anticolonial e a Crítica Decolonial para formular a tese de Tripla Jornada da mulher negra docente, caracterizada pela sobreposição das demandas do produtivismo neoliberal, do trabalho reprodutivo e do enfrentamento cotidiano ao racismo institucional. Metodologicamente, adotei uma abordagem mista com uma etapa quantitativa, em que realizei um censo das docentes negras com base em dados da Pró-Reitoria de Desenvolvimento de Pessoas (PRODEP), e uma etapa qualitativa, na qual conduzi um estudo de caso com entrevistas semiestruturadas, interpretadas via análise temática e de narrativas. Meus resultados quantitativos demonstram que, embora a ação afirmativa tenha ampliado o ingresso numérico, a ampliação se deu na forma de inserção incompleta, evidenciada pela sobrerrepresentação de mulheres negras em vínculos precários, por meio de contratos substitutos, e pela manutenção da hegemonia branca nos cargos efetivos de maior prestígio. No plano qualitativo, as narrativas revelaram que a solidão opera como uma tecnologia de contenção institucional, manifestada através de microagressões, deslegitimação epistêmica e do "racismo por denegação" (Gonzalez, 2020). Identifiquei que a convergência dessas violências resulta em adoecimento físico e mental, configurando um quadro de Tripla Exaustão. Concluo, contudo, que a presença negra na universidade mobiliza dialeticamente estratégias de reexistência, por meio das quais as docentes forjam redes de solidariedade e práticas de aquilombamento e fortalecimento comunitário que subvertem a lógica de isolamento, tensionando a cultura universitária em direção a uma emancipação radical (Moura, 1988; Lemos, 2007; Davis citada por Fonseca, 2024) e à construção de novos paradigmas de pertencimento.