CRIANÇAS TRANS E INCONFORMES: DISCURSOS E INTERVENÇÕES PATOLOGIZANTES EM SAÚDE MENTAL
transidentidades, identidade de gênero, saúde mental, psicologia, teoria queer
Esta pesquisa discute questões relacionadas com a alta incidência de crianças diagnosticadas com Transtorno de Identidade de Gênero (TIG) na infância, no Brasil e no mundo, e analisa os discursos e intervenções em saúde mental a partir de uma ampla revisão bibliográfica e de uma reflexão sobre três narrativas ficcionais sobre o encontro de crianças com profissionais de psicologia, mas também uma análise crítica sobre os manuais de saúde mental e pesquisas que apontam as disparidades em saúde de pessoas trans quando comparadas com a população em geral. O trabalho evidencia que as transidentidades colocam em disputas as ciências jurídicas e da saúde pelo controle dos corpos que desobedecem às normas de gênero. A tese é de que a vitória da medicina se dá pela patologização e, mesmo quando os manuais retiram a transexualidade da categoria de transtornos mentais, preservam o chamado Transtorno de Identidade de Gênero na Infância (TIG) para manter a patologização, uma vez que não tem como ser adulto trans sem passar pela infância. A tese também explicita que a patologização se dá também em determinados estudos da psicanálise, que concebem a experiência trans como psicose, perversão e histeria em adultos e falha na matriz representacional ou na saída do complexo de édipo para crianças. Tais construções, além de manter o estigma da patologização, retiram qualquer autonomia do sujeito. Os casos ficcionais, por sua vez, demonstram algumas demandas aos/às profissionais de psicologia: apontar se a criança é trans de fato, reduzir o sofrimento psíquico das crianças, obtenção de laudo para outras intervenções em saúde ou até uma possível reversão da transexualidade. A interpretação que tais famílias fazem da desobediência de gênero revela haver uma maior tolerância com uma identidade homossexual, sem nenhuma possibilidade discursiva de travestilidades ou fluidez de gênero. Tal apego à transexualidade também se dá nas ciências da saúde, a partir de um dispositivo de poder que constrói a ideia de infância associada com a cisgeneridade e a heterossexualidade, e na aceitação da transexualidade mediante diagnóstico de transtorno. A tese argumenta que as pesquisas em saúde mental, que evidenciam que pessoas trans têm maiores índices de ansiedade, depressão e suicídio em comparação com pessoas cis tomadas como grupo de referência, não problematizam as condições sociais de existência, nem os modos como cada grupo vivencia opressões e privilégios. Tais pesquisas repatologizam as transidentidades ao entender a transexualidade como uma máscara para doenças mentais, ou a partir da ideia de comorbidades. Alguns estudos apontam o papel do estresse de minorais como um modo de produzir adoecimentos e o papel positivo do suporte entre pares. A tese propõe uma concepção de exclusão social como modo de compreender as disparidades em saúde e enfatizar as dimensões psicossociais. Os sintomas de agressividade, rejeição ao convívio social e ideação suicida são entendidos a partir de um diálogo com as estratégias de enfrentamento à mortificação do eu, propostas por Goffman. Por fim, a tese destaca que, embora sejam necessários os serviços de atendimento às crianças trans, assim como a capacitação de profissionais, tais medidas são insuficientes para a promoção da saúde ou da cidadania e aponta como alternativa uma saída pelas vias culturais, de modo a descontruir a binaridade e uma aposta política na fragmentação das identidades de gênero.