Práticas discursivas do cuidado em saúde mental de profissionais da atenção primária
Cuidado em Saúde Mental. Atenção Primária à Saúde. Construcionismo Social. Psicologia Social
Esta pesquisa analisou as práticas discursivas de profissionais de saúde na atenção primária sobre o cuidado em saúde mental. Partimos da compreensão de que há a necessidade de construir estratégias que superem barreiras recorrentes nesse campo, como a medicamentalização indiscriminada e a sensação de despreparo relatada pelas equipes multidisciplinares de saúde da família. Estes obstáculos, muitas vezes naturalizados nas rotinas de trabalho, dificultam a efetivação de práticas pautadas na integralidade e na humanização do cuidado, em consonância com uma concepção ampliada de saúde, para além do modelo biomédico hegemônico. Entender a dinâmica das equipes e suas práticas discursivas possibilita a problematização do que está naturalizado e a possibilidade de construção de novas ações. A pesquisa é orientada pela abordagem teórico-metodológica das práticas discursivas e da produção de sentidos, no campo da Psicologia Social Construcionista. Foi realizada uma roda de conversa com uma equipe de saúde da família e comunidade no município de João Pessoa - PB. O encontro foi gravado e transcrito integralmente. Para a organização da análise das práticas discursivas, utilizamos o mapa dialógico. O mapa possibilitou a construção de dois eixos para análise e seus respectivos subeixos: 1. Dificuldades e limites no cuidado em SM; 1.1 Efeitos da medicalização/medicamentalização na desumanização da saúde; 1.2 Efeitos da alta demanda e baixa oferta; 1.3 Descontinuidade do cuidado; 1.4 Despreparo profissional; 1.5 Sofrimento e sobrecarga dos profissionais; 1.6 O cuidado diante do limite; 2. Práticas de cuidado em SM e estratégias de superação; 2.1 O assistencialismo e o cuidado individualizado; 2.2 Problematizações do cuidado; 2.3 Potencialidades da escuta e do vínculo; 2.4 Educação e autonomia comunitária; 2.5 Espaços de amparo ao profissional de saúde. O eixo 1 foca nos conteúdos lidos como dificuldades e discute a posição dos profissionais em naturalizar essas dificuldades. O eixo 2 foca em práticas discursivas voltadas a soluções tanto assistencialistas quanto emancipatórias, além do processo de problematizar as práticas de cuidado e buscar apoio mútuo na própria equipe. Os/as profissionais possibilitaram discutir recursos institucionais e comunitários para a produção de estratégias contextualizadas com a realidade social em que os sentidos sobre cuidado em saúde mental foram produzidos. A experiência de roda de conversa possibilitou a abertura de caminhos para se pensar uma prática de cuidado que não desampare o/a profissional no processo, mas que utilize da sua realidade como ponto de referência para a produção de sentidos sobre o cuidado de forma contextualizada social e territorialmente.