A ATIVIDADE CEREBRAL NA PRODUÇÃO DE TEXTOS ESCRITOS DURANTE O ESTADO DE TRANSE MEDIÚNICO:
UM ESTUDO COM USO DE EEG QUANTITATIVO
EEG quantitativo, Transe mediúnico, Mediunidade, Neurociência da Linguagem, Neurolinguística, Mente cérebro, Cérebro linguagem
Introdução: O transe mediúnico vem sendo estudado como um fenômeno cultural e considerado um estado alterado de consciência, com características dissociativas e não patológicas. Nesse contexto de experiência envolvendo mediunidade, há produção de textos escritos enquanto expressão da atividade linguística desempenhada por indivíduos identificados como médiuns, com a alegada capacidade de comunicação com a mente de pessoas falecidas. Estudos sobre o efeito do estado mental do transe mediúnico no desempenho linguístico e sua relação com o funcionamento cerebral ainda são escassos, especialmente com o uso da eletroencefalografia (EEG). No entanto, o EEG quantitativo vem sendo utilizado em estudos sobre linguagem verbal e, considerando o contexto da mediunidade, pode fornecer informações importantes sobre a ativação cerebral relacionada a processos linguísticos, contribuindo para o campo interdisciplinar da Neurociência da Linguagem e a controvertida relação entre linguagem verbal e cérebro, situado dentro dos estudos sobre o complexo mente-cérebro.
Objetivo: Analisar a atividade elétrica do cérebro de médiuns em estado de transe por meio de EEG quantitativo durante suas práticas de produção escrita, para discutir e descrever a presença e a função das frequências no funcionamento cerebral durante a produção de atividades linguísticas escritas e sua correlação com a qualidade dos textos produzidos.
Metodologia: essa pesquisa, caracterizada como um estudo observacional transversal e exploratório de abordagem quantitativa, foi realizada com um grupo de médiuns e um grupo controle em 2 etapas. A 1ª etapa consistiu na aplicação de questionários e de instrumentos para avaliação psicológica dos participantes. A 2ª etapa seguiu o protocolo de coleta com uso de EEG durante a realização de diferentes tarefas. Com a utilização do EEG quantitativo, os sinais eletroencefalográficos analisados foram os das tarefas escritas, divididas em escrita em estado de vigília para os dois grupos, a escrita simulando autoria de personalidade falecida produzida pelo grupo controle e a escrita realizada durante o transe mediúnico pelo grupo de médiuns. As comparações estatísticas dos dados de EEG, bem como das avaliações da qualidade dos textos produzidos, foram feitas por meio da ANOVA de Medidas Repetidas.
Resultados: Os testes neuropsicológicos indicaram que os dois grupos não apresentaram desordens mentais. O grupo de médiuns pontuou para percepções alucinatórias, mas não apresentou desordem esquizofrênica. A avaliação dos subcomponentes da Escala de Experiência Dissociativa revelou tendência à despersonalização, absorção e distratibilidade para alguns dos indivíduos do grupo de médiuns. As avaliações dos textos produzidos apresentaram diferença significativa para a tarefa de escrita em estado de transe mediúnico, comparada às demais tarefas de escrita em estado de vigília produzidas por ambos os grupos e a escrita de textos simulando personalidades falecidas, produzida apenas pelo grupo controle. Os textos produzidos em estado de transe mediúnico apresentaram pontuações maiores, comparados aos demais textos, indicando maior qualidade da escrita. Quanto ao EEG quantitativo, a atividade cerebral como um todo apresentou diferenças significativas para a escrita no transe comparada à escrita criativa (simulação da psicografia pelos participantes controle), especificamente para as faixas de frequência: teta, alfa, beta 1 e beta 2. Apenas o grupo controle apresentou diferença significativa para a faixa delta na comparação entre tarefas, enquanto no grupo de médiuns essa frequência permaneceu estável da escrita em vigília para a psicografia. Na análise da atividade por hemisfério, houve diferença significativa entre hemisférios para as faixas: teta, alfa, beta 1 e beta 2, na comparação entre grupos para as tarefas
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de psicografia dos médiuns e de escrita criativa (simulação da psicografia) dos participantes controle. Houve apenas diferença significativa entre os hemisférios na faixa delta e beta 2 para a comparação entre tarefas dentro do grupo controle. Os resultados não corroboraram a literatura quanto à maior ativação do hemisfério esquerdo comparado ao direito durante a produção dos textos escritos. Em um estudo comparado de resultados para um dos médiuns, único que pontuou o valor máximo para perda de consciência em um dos instrumentos aplicados, foram encontradas evidências de hipoativação da atividade cerebral, com maior oscilação dos ritmos delta e teta, apesar da diferença significativa nas avaliações para a tarefa de psicografia em termos de qualidade e complexidade textual.
Conclusão: há um conjunto de evidências que diferencia a escrita dos médiuns durante o transe mediúnico em comparação às produções escritas durante o estado de consciência em vigília dos próprios médiuns e dos participantes do grupo controle. O EEG quantitativo forneceu evidências de uma eletrofisiologia cerebral do transe mediúnico diferente do estado habitual, sem apresentar associações com características patológicas. Os achados corroboram a hipótese de que ocorrem alterações em diferentes faixas de frequência, sem resultar em prejuízo no desempenho linguístico. Ao contrário, a produção textual na experiência com a mediunidade é mais complexa, com maior pontuação nas avaliações realizadas. Para o estudo comparado de um dos médiuns, as evidências encontradas nos dados de EEG quantitativo indicam a possibilidade de hipoativação da atividade cerebral durante a psicografia, correspondendo a uma alegada perda de consciência. Esses resultados destacam a necessidade de investigações mais aprofundadas para compreender as variações nos padrões cerebrais relativos à competência e desempenho linguísticos nas experiências de transe dos médiuns, bem como na compreensão da própria natureza do transe e suas implicações para a controvertida relação mente-cérebro.