Fazer ciência sobre o indefinível: Dionísio Areopagita lido por Tomás de Aquino
Tomás de Aquino, Dionísio Areopagita, epistemologia, linguagem, triplex via.
Buscamos compreender por que Tomás de Aquino precisou assimilar Dionísio Areopagita como autoridade e de que modo essa assimilação permitiu a composição de um pensamento de matriz neoplatônica no interior de um quadro científico aristotélico, e assim formular uma ciência teológica a partir de pressupostos da via da remoção como transcendência, pela possibilidade epistemológica da analogia e da metáfora. A incorporação de Dionísio não aparece como elemento extrínseco ou meramente devocional, mas como resposta a uma exigência interna do próprio projeto tomista, que precisava dispor de instrumentos conceituais capazes de tratar das realidades separadas e do princípio divino segundo um regime epistemológico adequado à sua transcendência. Nesse sentido, reconstruímos a genealogia da recepção do Corpus Dionysiacum desde sua origem até sua elevação intelectual no século XIII, mostrando como a leitura sistemática empreendida por Alberto Magno foi decisiva para consolidar Dionísio como autoridade filosófico-teológica e para preparar o horizonte no qual Tomás pôde operar sua própria reelaboração.
Ao confrontar os comentários de Alberto Magno aos Nomes Divinos com os comentários de Tomás de Aquino, tornaram-se visíveis as questões propriamente epistemológicas da teologia. Enquanto em Alberto predomina a exposição simbólica e hierárquica do pensamento dionisiano, em Tomás esse material é reorganizado no interior de uma teoria do conhecimento que articula operações do intelecto, centralidade do juízo e distinção entre essência e ser. A partir desta configuração, compreende-se a linhagem do pensamento do Areopagita integrada a uma ciência teológica que procede por afirmações proporcionais, sem pretensão de apreensão direta da essência divina, e sim de reintegração com o Uno enquanto Princípio.
Tomás tomou Dionísio integralmente, ao torná-lo o terceiro autor mais citado em toda a sua obra, e sua teologia se estruturou também a partir da hierarquia celeste e da teologia negativa. A partir dessa leitura, destrinchamos a triplex via para mostrar como da impossibilidade de dizer o que Deus é se abre um caminho afirmativo fundado na causalidade, na analogia, na participação e na eminência. A via da negação ocupa posição estrutural decisiva, pois estabelece o limite interno de toda afirmação teológica. Ao retirar de Deus não apenas as imperfeições, mas também os modos finitos de significar inerentes aos conceitos extraídos do sensível, a via negativa impede que os nomes divinos sejam compreendidos segundo um regime unívoco ou quiditativo. A função apofática não suspende o conhecimento, mas o prepara, preservando a diferença ontológica entre o princípio divino e os entes criados e assegurando que toda afirmação permaneça ordenada à transcendência da essência divina. A negação é posta como condição de possibilidade da teologia afirmativa, pois delimita o alcance do intelecto ao plano do ser e da causalidade, abrindo o espaço no qual a analogia, a participação e a eminência podem fundamentar juízos verdadeiros sem reduzir o absoluto à medida do conceito humano.
A via da causalidade fundamenta a afirmação teológica ao reconhecer que as perfeições presentes nos entes criados procedem de um princípio primeiro que as comunica segundo a ordem da participação. Essa relação causal estabelece um regime analógico de significação, no qual as perfeições são afirmadas de Deus como causa fontal e dos entes como efeitos, segundo proporções diversas de ser. A analogia assegura que os nomes divinos possuam referência real ao princípio e expressem a diferença ontológica entre o modo simples de subsistência divina e o modo participado das criaturas. A via da eminência eleva esse reconhecimento ao afirmar que as perfeições causalmente reconhecidas subsistem em Deus de maneira supereminente, segundo um grau de ser que corresponde à simplicidade e à plenitude do princípio. Desse modo, causalidade, analogia e eminência estruturam conjuntamente uma afirmação teológica proporcional ao modo humano de conhecer e ordenada à inteligibilidade do transcendente. O reconhecimento do limite da linguagem conduz à suspensão do discurso, mas à constituição de uma teologia com inferências por proporcionalidade e símbolos.