UM AXEXÊ PARA A TROPICÁLIA: TECNOLOGIA RITUALIZADA PARA (RE)ENCENAR E DOCUMENTAR O SHOW BARRA 69
documentário performativo; memória; axexê; pesquisa-criação; mediação tecnológica
Esta tese investiga as potências do cinema documental para reencenar e presentificar acontecimentos históricos por meio de dispositivos performativos, rituais e tecnológicos, buscando compreender como arte, ritual e tecnologia podem reconfigurar os modos de narrar e atualizar a memória. Como objeto e método, propõe-se a realização do documentário performativo Barra 69 - Um Axexê para a Tropicália. A pesquisa parte da ausência de registros audiovisuais do último show realizado por Gilberto Gil e Caetano Veloso no Brasil, em julho de 1969, antes do exílio imposto pela ditadura militar. Diante desse vazio de arquivos, o trabalho mobiliza a metáfora do Axexê, ritual fúnebre do Candomblé, como operador conceitual capaz de transformar memória em presença e ausência em experiência sensível. A pesquisa articula o conceito de MemORÍa, formulado por Francisco Phelipe Cunha Paz (2019), que compreende a memória como tecnologia sensível de atualização do passado no presente, em diálogo com a fabulação crítica proposta por Saidiya Hartman (2008), inspirada nas reflexões sobre fabulação de Gilles Deleuze (1990), que mobiliza a invenção narrativa para reinscrever histórias silenciadas no arquivo histórico. Esses conceitos são aproximados do enativismo, a partir de Francisco Varela, Evan Thompson e Eleanor Rosch (1991), e de seus desdobramentos em Alva Noë (2004) e Shaun Gallagher (2005), para compreender a memória como prática situada no corpo em ação e na experiência. Desenvolvida como pesquisa-criação, a tese articula prática artística e reflexão teórica, explorando ainda tecnologias de narrativa imersiva, realidade mista e inteligência artificial generativa para expandir a dimensão espectral da memória e tensionar a relação do documentário com o real histórico.