SER MULHER CIRCENSE ITINERANTE NO SERTÃO:
O CORPO FEMININO NA ARTE DA SEDUÇÃO, SUBMISSÃO OU SUBVERSÃO?
Palavras-chave: Mulher circense. Sertão. Corpo e gênero. Estética da Atração. Circo itinerante.
RESUMO
Esta pesquisa investiga a presença e o papel das mulheres na configuração do circo de lona de pequeno e médio porte, bem como suas vivências e trajetórias como artistas itinerantes no sertão brasileiro. O estudo se debruça sobre as experiências complexas dessas mulheres em um ambiente circense permeado por dinâmicas de gênero desafiadoras, destacando sua resiliência e as estratégias de resistência e subversão diante de uma normatividade opressora. Dentre as especificidades, buscamos dar visibilidade às vozes silenciadas dessas mulheres, analisando suas experiências a partir da intersecção entre gênero, corpo e poder (BEAUVOIR,1990; BOURDIEU, 1991, 1998, 2010; BAUDRILLARD, 2008). Além disso, revelamos os desafios enfrentados ao longo de sua jornada circense pelas cidades do sertão e destacamos as estratégias desenvolvidas para subverter essa dinâmica opressora e reivindicar autonomia e empoderamento. A pesquisa também adota uma perspectiva histórica ao explorar a influência das famílias circenses Astley e Franconi na configuração do circo moderno, especialmente no que diz respeito à presença feminina e aos papéis a elas destinados, buscando compreender como esses modelos moldaram a representação do corpo feminino e a dinâmica de gênero no circo contemporâneo. O estudo tem como foco a trajetória de mulheres que integram circos itinerantes de pequeno e médio porte no sertão nordestino. Metodologicamente, adotamos a cartografia (DELEUZE; GUATTARI, 1995) e utilizamos a análise de conteúdo (BARDIN, 2011) como método analítico. Foram selecionadas oito mulheres circenses para a coleta de entrevistas, por meio de questionários semiestruturados, permitindo-nos extrair informações essenciais para a compreensão desse fenômeno, quais foram analisadas a luz de cinco categorias: 1- Papéis sociais e relações de Trabalho; 2- Vida doméstica e relações interpessoais; 3- Cena, corpo, arte e sedução; 4 – As múltiplas violências; 5 – Identidade e resistência. Embora as mulheres no circo nem sempre tenham sido reduzidas à ordem da sexualidade — pela exposição de seus corpos ou pela reprodução de atributos ligados a padrões normativos de feminilidade —, a estrutura circense ainda reflete um modelo patriarcal que, na maioria dos casos, inferioriza e invisibiliza experiências femininas que destoam da demarcação social de gênero. No entanto, com o avanço das discussões e a ampliação dos olhares sobre a estrutura social, torna-se possível evidenciar o protagonismo feminino nos mais diversos processos de organização do circo e do espetáculo. Assim, as mulheres, ao lado dos homens, assumem um papel fundamental na perpetuação da tradição circense ao longo da história.