HISTÓRIAS DESFIGURADAS: COLONIALIDADES NA TRILOGIA DE SALTA E EM ZAMA DE LUCRECIA MARTEL
Lucrecia Martel; cinema argentino; colonialidade; decolonialidade; análise fílmica; cinema latino-americano.
A presente tese analisa as colonialidades presentes na obra cinematográfica da diretora argentina Lucrecia Martel, tendo como corpus os longas-metragens O Pântano (2001), A Menina Santa (2004) e A Mulher sem Cabeça (2008), que compõem a trilogia de Salta, e Zama (2017). O objetivo geral consiste em discutir, por meio de uma análise fílmica interdisciplinar e interseccional, como as colonialidades marcam os traços estilísticos e os códigos autorais pelos quais a diretora narra a permanência colonial em suas ficções de longa-metragem. A pesquisa situa o cinema de Martel para além das convenções críticas associadas ao Novo Cinema Argentino, argumentando que sua obra não se restringe à representação da crise do presente, mas articula uma reflexão de longa duração sobre as estruturas coloniais que persistem nas relações sociais, domésticas e simbólicas da Argentina contemporânea. A metodologia adotada é interdisciplinar, combinando análise fílmica, pesquisa bibliográfica e cotejamento com fontes extrafílmicas, como entrevistas e ensaios críticos, em diálogo com os estudos decoloniais (MIGNOLO, 2003; QUIJANO, 1992; MALDONADO-TORRES, 2019; CUSICANQUI, 2018), as epistemologias feministas (HARAWAY, 1995; HARDING, 2012) e os estudos pós-coloniais (BHABHA, 1998; SPIVAK, 2010). A análise demonstra como Martel constrói uma visualidade decolonial por meio do deslocamento do olhar dominante branco, do uso do fora de campo, da paisagem sonora diegética e de temporalidades anacrônicas, estratégias que desierarquizam as representações de sujeitos subalternizados (indígenas, mestiços, escravizados) e tornam visíveis os apagamentos que a história oficial e a crítica cinematográfica eurocêntrica insistem em perpetuar. A tese está estruturada em quatro capítulos que abordam, respectivamente, os contextos históricos do cinema latino-americano realizado por mulheres, a desfiguração do outro no retrato etnográfico colonial, a figura de Malemba como corpo da decolonialidade em Zama e a subversão do herói colonial como contra-história da conquista.