AUTOARQUIVAMENTO LÉSBICO. O PESSOAL E O POLÍTICO NO DOCUMENTÁRIO AUTOBIOGRÁFICO LÉSBICO BRASILEIRO CONTEMPORÂNEO
Documentário; Lesbianidade; Autobiografia; Arquivo; Autoarquivamento
Partindo de uma revisitação histórica sobre as representações das lesbianidades no cinema, esta pesquisa visa investigar o documentário lésbico brasileiro contemporâneo realizado sob a forma autobiográfica à luz das teorias do cinema, visando identificar suas características estilísticas e formais, bem como as suas contribuições ao campo do cinema e da epistemologia lésbica. Discute-se a noção do autor no cinema pela perspectiva crítica das teorias feministas e queer, como propõem Ludimila Carvalho e Dieison Marconi, para quem uma noção de autoria pode ser elaborada a partir das escolhas estilísticas feitas por determinados grupos sociais para contarem suas histórias. Esta discussão é reforçada pelo diálogo com autores como Michael Chanan, para quem a prática documental é permeada por relações políticas e pela subjetividade de seus realizadores. Por isso, pessoal e político se aproximam nas narrativas documentais contemporâneas. A partir de autores como Philippe Lejeune e Leonor Arfuch, revisitamos a tradição da autobiografia na literatura e sua transferência para o cinema, a fim de compreender de que modo a escrita de si se instaura enquanto uma forma política de resistência e de reivindicação de autoridade por parte de grupos minorizados. Esta discussão nos conduz à proposição da produção documental autobiográfica lésbica como uma forma de autoetnografia fílmica, como sugere Catherine Russell, à medida que identificamos que mais do que falar de si mesmas, as diretoras destas obras estão apresentando ao público o mundo no qual estão inseridas, seus contextos sociais, políticos e históricos. Assim, passamos à análise fílmica de sete curtas-metragens, realizados entre 2018 e 2025, a fim de verificar como o pessoal e o político são postos em cena a partir das escolhas estéticas feitas pelas diretoras. O trabalho analítico sobre os filmes Sair do armário (2018, Marina Pontes), Rebu: egolombra de uma sapatão quase arrependida (2020, Mayara Santana), à beira do planeta mainha soprou a gente (2020, Bruna Barros e Bruna Castro), Uma carta para o meu pai (2021, Aline Belfort), Cartas pra mim (2022, Marina Vergueiro), Tá fazendo sabão (2022, Ianca Oliveira) e O QUE VOCÊ É sai por todos os lados (2025, Larissa Lacerda) revela que a maior parte desta produção trabalha com o uso de arquivos pessoais e com a narração em tom epistolar como dispositivos criativos de elaboração de suas vivências em cena, assim como ferramentas de reivindicação de um lugar de autoridade sobre as próprias narrativas. Considerando estes aspectos, a pesquisa conclui que esta prática de autoinscrição lésbica se aproxima das noções de inventário lésbico proposto por Ramayana Lira e Alessandra Brandão, assim como a de arquivo de sentimentos apresentado por Ann Cvetkovich. Apoiado pela discussão da arquivologia proposta por Catherine Russell, este trabalho conclui que as escolhas formais feitas pelas diretoras em seus documentários autobiográficos sugerem uma prática de autoarquivamento lésbico, na medida em que visam a transmissão de um saber sobre as lesbianidades. Trata-se de um gesto político em que os documentários resgatam e registram as experiências lésbicas a partir dos documentos postos em cena como uma forma de resistência política ao apagamento sistemático das lesbianidades na sociedade e de reformulação de imaginário sobre essa comunidade.