SELFIES, OS ESPELHOS DA FESTA: PERFORMANCES INCORPORADAS DO DIA DE IEMANJÁ NA PANDEMIA
selfie; performance; fotografia; mediação; dia de Iemanjá; pandemia
Esta tese de doutorado aponta o quanto as selfies podem auxiliar na compreensão de transformações latentes do sentido de instantâneo, de futuros e memórias para o fotográfico. Ao pensar as selfies enquanto tecnicidade, com Jesús Martín-Barbero, aposta-se nelas como mediações de imagens de sujeitos projetadas numa cultura de mobilidade, articulando presenças/ausências entre o dispositivo móvel e as redes e fluxos digitais dentro de temporalidades múltiplas. A pesquisa parte de uma premissa, entender a selfie não somente como uma forma específica de autorretrato fotográfico, mas como um fenômeno cultural contemporâneo da imagem revelador do sensorium contemporâneo diante de um entorno tecnocomunicativo em rede. As formas culturais sélficas agregam à experiência fotográfica outras camadas de relações temporais e espaciais, de intencionalidades e de significação. A pesquisa toma o Dia de Iemanjá no contexto da pandemia da Covid-19 como ambiente catalisador do fenômeno. As imagens sélficas postadas no Dia de Iemanjá sem a existência da tradicional festa popular, se apresentou como uma situação que poderia amplificar ou catalisar o aspecto performático e incorporado dessa forma cultural, diante da dimensão da autorrepresentação. A partir daí, inicia-se uma coleta de imagens postadas na rede social Instagram contendo as hashtags #diadeiemanja e #2defevereiro entre os anos de 2020 e 2022, um período que compreende o último ano com a existência da Festa de Iemanjá e os anos posteriores pandêmicos com o impedimento do evento. Para compreender as transformações perceptivas deste “acontecimento” fotográfico sélfico do Dia de Iemanjá, a aposta é avançar pela dimensão corporal da selfie, buscando compreender quais conjuntos de gestualidades que o dispositivo fotográfico circunscreve à performance de um corpo na tentativa de produzir uma imagem que também representa uma presença. A noção de performance é encarada nos termos de Diana Taylor enquanto episteme possibilitando ver repertórios de uma memória cultural e suas transformações. Nesse sentido, através de um olhar historicizado para o estudo da fotografia de autorrepresentação, localizando-a enquanto dispositivo nos termos foucaultiano, a trajetória metodológica adotada posiciona as selfies do dia de Iemanjá no centro da última cartografia de Martín-Barbero, o Mapa Insomne 2017. Guiado pela articulação dos teus eixos, que tensionam sensorialidades, tecnicidades, espacialidade e temporalidade as imagens vão evidenciando através das lentes da performance as transformações perceptivas, culturais e comunicativas mobilizadas por uma ambiência em rede de caráter conectivo, responsivo e móvel.