Invenções do “maldito” na música brasileira: crítica cultural e regimes estéticos não lineares
Maldito; música brasileira; disputas; formações discursivas; regimes estéticos.
Esta tese de doutorado busca compreender as disputas discursivas, sensíveis e estético-políticas em torno do conceito de “maldito” na música brasileira desde as décadas de 1970 a 1990 até o presente. O objetivo é analisar a construção desse rótulo e suas variações no contexto da música popular brasileira. A pesquisa examina a crítica cultural especializada em revistas, jornais, sites, blogs, entrevistas e comentários no YouTube. Essas fontes, junto a depoimentos de artistas, amigos e familiares em documentários, ajudam a traçar as trajetórias de músicos como Sérgio Sampaio, Itamar Assumpção e Jards Macalé, frequentemente associados ao termo “maldito”. A partir das formações discursivas de Michel Foucault, a pesquisa mostra como o rótulo é disputado por diferentes agentes sociais. A análise utiliza o conceito de partilha do sensível de Jacques Rancière para investigar as disputas políticas e estéticas envolvendo esses artistas e suas produções. A pesquisa também busca entender como a crítica lida com expressões artísticas que desafiam os regimes estéticos dominantes e como tenta estabilizar ou contestar essas expressões. O estudo considera os contextos históricos e temporais que moldam essas disputas, utilizando as ideias de horizonte de expectativa e espaço de experiência de Reinhart Koselleck. A pesquisa adota uma abordagem pragmatista para compreender as interações entre experiências, expectativas e valores em diferentes temporalidades. Os resultados apontam para a multiplicidade do termo “maldito”, que não se restringe apenas a questões de vendas ou aceitação crítica, mas envolve exclusão estética, política e econômica dentro de um mercado estruturado. A pesquisa revela que a crítica e o mercado atuam de maneira censória e regulatória, ao mesmo tempo em que acomodam ambiguidades e complexidades. A análise das trajetórias de Sérgio Sampaio, Itamar Assumpção e Jards Macalé mostra que o rótulo “maldito” é complexo e não-linear, envolvendo resistência aos padrões da indústria, postura crítica, e temas como racismo e violência policial. As disputas em torno do termo revelam sua densidade histórica e espaço-temporal. O “fracasso” de Itamar Assumpção e Sérgio Sampaio foi marcante para a música alternativa no Brasil, enquanto a reinvenção de Jards Macalé demonstra o dinamismo do cenário popular. A tese conclui que o conceito de “maldito” é dinâmico e multifacetado, permeado por questões políticas, estéticas, sociais e mercadológicas. A análise das trajetórias desses artistas revela as contradições do mercado e da crítica musical, e a potência de obras que, mesmo à margem, continuam a ecoar.