ESTRUTURAS ELEMENTARES DO CINEMA DOCUMENTAL POLÍTICO INDÍGENA NO BRASIL
Documentário Indígena, Análise de Filmes, Política, Cultura, Movimento Indígena.
No histórico de contato entre as populações indígenas e a sociedade ocidental, a contemporaneidade é marcada pela apropriação indígena de tecnologias não indígenas com o propósito de reivindicar direitos humanos e denunciar as violências que marcam essa relação desde pelo menos 1500 no Brasil. Com os processos de retomada de territórios e políticas de representação, os povos indígenas atualmente operam as ferramentas audiovisuais enquanto ferramentas de luta. Essa tese deriva de pesquisa sobre o cinema documental indígena, em que analisamos três episódios da série Maracá (2020), produzida pela Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (APIB): Plano de Cura, A mãe do Brasil é Indígena e Ancestralidade. A série foi produzida e lançada durante o período pandêmico (2020-2021), como parte da estratégia para mobilização de recursos para ações emergenciais de atendimento às comunidades indígenas naquele difícil momento histórico. Partindo do reconhecimento da necessidade de uma abordagem crítica sobre as epistemologias, teorias e conceitos ocidentais utilizados para sistematizar a experiência do contato com os povos indígenas, em que estão imbricados debates sobre ética e colonialismo, aqui buscamos deslocar tais padrões rumo a um encontro intercultural em que a perspectiva e as epistemologias indígenas estejam em evidência desestabilizando conceitos de autoria e autoridade. A partir de um referencial e análise contextual das relações entre a sociedade nacional e os povos indígenas no Brasil, chegamos às aproximações entre os Estudos do Cinema e a Antropologia, disciplinas profundamente envolvidas no processo de documentação e disseminação de conhecimentos sobre os povos indígenas. Dessa forma, adotamos uma fundamentação epistemológica para a pesquisa sobre filmes documentários indígenas considerando o contexto político e as ideias de Cultura, identidade e representação. Com a proposta de um encontro intercultural, nessa pesquisa analisamos os elementos fílmicos constituintes dos filmes documentais em diálogo com categorias analíticas clássicas da Antropologia para subvertê-las aos modos indígenas de representação e produção de conhecimento com um olhar crítico. Da análise dos filmes, emergiram três lentes de abordagem: 1 – A incompatibilidade da dicotomia Natureza e Cultura no modo indígena de filmar e contar histórias; 2 – A história retomada pelo movimento indígena subvertendo o ponto de vista dos documentários indigenistas; 3 – A senioridade e o parentesco como modelos de sociabilidade dentro e fora de campo. Concluímos desse encontro intercultural que o filme documentário político indígena mobiliza universos múltiplos e transversais com o foco na denúncia da violação histórica de direitos e na argumentação sobre mundos outros possíveis.