O POVO DO RAIO: A COSMOPOLÍTICA NOS COLETIVOS DE CINEMA DOCUMENTÁRIO ENTRE OS GUARANI
Cinema indígena. Documentário Guarani. Cosmopolítica das Imagens. Dissenso. Fabulação. Performance.
Propomos nesta tese uma reflexão acerca da constituição da cosmopolítica da imagem no cinema documentário guarani, como via de escapar aos regimes de destruição de vida dos povos tradicionais e formas de construir outros modos de fazer política e condições de existência, tendo como instrumento o cinema. Para isso, estudamos os coletivos de cinema documentário entre os povos Guarani na relação com uma preocupação da cosmopolítica que se inscreve no processo de construção das imagens, a partir das dimensões do dissenso, da performance e da fabulação que mobilizam, por assim dizer, a forma como essa filmografia tem surgido no contexto da cinematografia indígena. A questão central que identificamos no seio dessa produção é a de uma “comunicação intermundos”, de uma produção audiovisual que é feita com o diálogo e com a contribuição das epistemologias do conhecimento ameríndio, com as tecnologias de comunicação, com uma linguagem cinematográfica e as técnicas e modos de fazer audiovisual canonizados em um pensamento filosófico, teórico e político das imagens. Como questão específica, para entender o fenômeno da produção audiovisual indígena como experiência coletiva, estética e política que adentram às formas fílmicas, construímos um breve panorama de experiências e formação de coletivos de cinema entre os povos indígenas da América Latina nas últimas décadas, com especial atenção para Argentina, Bolívia, Brasil, Chile, Colômbia, Equador, Peru e México. Esse surgimento de experiências cinematográficas vai constituir o que chamamos de ayllu cinematográfico, para fazer referência ao conceito que corresponde às relações de parentesco entre os povos andinos, associando a uma concepção de comunidade em suas formas de organização cosmológica e política. Partimos de referências teóricas para pensar o dissensual, o fabulativo e o performático como gestos que estão em uma dimensão cosmológica e política dessas produções. Antes disso, fazemos uma reflexão acerca do conceito de cosmopolítica como regime espiritual e político dos Guarani e Kaiowá diante do Antropoceno e das aceleradas mudanças climáticas que afetam a vida desses povos e de não-humanos, por exemplo. Nessa perspectiva, o corpus estudado é constituído por coletivos de cinema entre os Guarani (Mbyá e Kaiowá) e as alianças políticas que estabelecem com outros povos, como os Terena, e também de países vizinhos, como Argentina e Bolívia, sendo eles o Colectivo de Cine Mbyá Guaraní Ara Pyau, entre os Mbyá de Misiones, Argentina, o Coletivo Mbyá-Guarani de Cinema, entre os Mbyá do Rio Grande do Sul, Brasil, a Associação Cultural dos Realizadores Indígenas de Mato Grosso do Sul (Ascuri), de Mato Grosso do Sul, Brasil, e suas alianças com os povos Terena e os povos de língua quéchua da Bolívia, e Coletivo de Cinema Guahu'i Guyra, entre os Guarani-Kaiowá de Mato Grosso do Sul. Ao final, propomos como pistas para pesquisas futuras a abordagem metodológica para a análise fílmica com o apoio rede de colaboração em pesquisa, como gesto de descolonizar as leituras das imagens dessas produções entre os povos tradicionais.