A GEOGRAFIA DO PROBLEMA MINERAL NA BAHIA
territorialização do capital, conflitos e resistência popular
Palavras-chave: Neoextrativismo. Modelo Mineral. Conflitos Territoriais. Resistência Popular. Lugar-território.
A atividade mineradora produz afetações e conflitos de diversas ordens, que incidem sobre múltiplas dimensões da dialética sociedade-natureza. No contexto do neoextrativismo, configura-se como um processo contraditório de reprodução do capital hegemônico, fundamentado na financeirização dos bens da natureza e na intensificação da exploração mineral. Trata-se de um modelo voltado à sustentação de um sistema produtivo globalizado, conduzido por corporações transnacionais e mediado pelo método corporativo-estatal, que atua na territorialização do capital mineral. Na América Latina e no Brasil, esse modelo manifestase de forma profundamente dependente, violenta e expropriatória, firmado na contradição Estado-capital-trabalho, e (re)produz conflitos territoriais e socioambientais que se expressam diretamente no Lugar, afetando especialmente populações do campo. Na Bahia, e de modo mais específico na Bacia Hidrográfica do Rio das Contas (BHRC), observa-se uma intensificação da presença minerária nos últimos anos, com a instalação e a expansão de grandes projetos neoextrativistas. Esses processos têm acirrado os conflitos e impulsionado as lutas sociais protagonizadas por sujeitos e coletivos populares que contestam a lógica hegemônica do capital mineral, a qual reproduz a luta de classes, do solo ao subsolo, e impõe o lucro em detrimento da vida. Nesse contexto, esta pesquisa objetiva analisar os processos de Resistência Popular ao modelo mineral na Bahia, e na BHRC, observando as contradições e os conflitos decorrentes da territorialização do capital mineral hegemônico sobre o lugar-território. A metodologia foi orientada pelo Materialismo Histórico Dialético, com enfoque transescalar e ancoragem nos princípios da geografia crítica e comprometida com os sujeitos em luta. O percurso metodológico incluiu levantamento bibliográfico e análise documental, trabalho de campo com observação participante, realização de oficinas, entrevistas, registros fotográficos e elaboração de produtos cartográficos. Destaca-se, ainda, a adoção da metodologia extensionista do Grupo de Pesquisa GeografAR, no fazer “geografia com os pés no chão”, pautada na abordagem que privilegia o diálogo com os sujeitos coletivos e a produção de conhecimento situada, participativa e comprometida com os territórios em r-Existência. Ao articular a análise da expansão minerária no estado com os processos de Resistência Popular a tese apresenta uma geografia do problema mineral na Bahia, evidenciando a expansão e a intensificação da mineração, os principais conflitos territoriais, as populações afetadas e a atuação estratégica do Estado na consolidação da lógica mineral, especialmente por meio da viabilização de infraestruturas logísticas, como a Ferrovia de Integração Oeste-Leste (FIOL) e o Porto Sul. No campo das Resistências, identificou-se diversas experiências de enfrentamento ao modelo mineral, gestadas a partir do lugar-território e marcadas por sua heterogeneidade em formatos, níveis de organicidade e metodologias. Apesar de suas particularidades, essas experiências compartilham a luta por Terra-Território-Água-Vida – em que a dimensão hídrica se revela como fundante –, a articulação em rede e o desafio de construir unidade na luta, enquanto elementos em comum. Dentre elas, destaca-se o Movimento pela Soberania Popular na Mineração (MAM), que se consolida uma força popular contra-hegemônica, articulando estratégias e saberes voltados à construção de outro modelo mineral possível.