OS SAVEIROS DA BAÍA DE TODOS-OS-SANTOS: ENTRE AS TÉCNICAS E AS REMINISCÊNCIAS
Palavras-chave: Espaço Geográfico. Paisagem. Sistemas Técnicos. Saveiros. Baía de Todos-os-Santos.
O estudo teve como foco compreender a articulação da trajetória dos saveiros, presentes na Baía de Todos-os-Santos (BTS), Bahia, desde o século XVI, com as transformações socioespaciais do seu entorno, a partir de narrativas e reminiscências dos mestres saveiristas. Para o entendimento dos motivos que levaram às mudanças do uso dos saveiros como objetos técnicos e integrantes da cultura local, as análises e descrições realizadas neste trabalho foram feitas à luz da perspectiva do sistema técnico de Milton Santos (2020 [1996]), revelador da produção histórica da realidade em sua totalidade. Nesse seguimento, foi utilizado a noção de técnica atrelada aos saveiros, como mediadora entre o homem e o meio, bem como numa perspectiva histórica do materialismo aberto de Walter Benjamin, que, na sua obra, leva em consideração uma construção de experiência do passado. O saveiro foi elemento de unificação entre a antiga região do Recôncavo Baiano e a capital, foi a embarcação marítima responsável em cumprir várias funções no escoamento da produção do interior para Salvador e, posteriormente, exportadas para outros estados e países. As técnicas dominantes na região foram essenciais para o seu desenvolvimento econômico; a conformação física da baía e dos municípios do entorno requeriam técnicas que tornassem viável a exploração da área. O final do século XIX foi um período de intensas transformações técnicas que se consolidaram como marcos do processo de modernização: ferrovias, máquinas a vapor, novas infraestruturas de transporte, embarcações mais avançadas, além de novas técnicas de produção e cultivo que compunham este novo cenário do entorno da Baía de Todos-os-Santos. Nesse contexto, o capitalismo expandiu suas fronteiras e impôs a necessidade de adaptações tanto nos espaços quanto nas práticas e comportamentos dos indivíduos, estimulando uma reconfiguração das relações sociais e econômicas. O espaço geográfico da Baía de Todos-os-Santos e dos municípios do seu entorno passam a ser redefinidos a partir das novas técnicas instaladas. A movimentação que antes acontecia por vias marítimas e fluviais passou a acontecer no interior desses municípios através das rodovias. As narrativas dos mestres saveiristas evocam um passado em que os saveiros desempenhavam um papel central na paisagem da Baía de Todos-os-Santos; demonstram uma clara consciência da relevância histórica e econômica dos saveiros para a cidade do Salvador e seus municípios vizinhos; reconhecem as transformações técnicas que contribuíram para o gradual declínio dessa embarcação e admitem, nostalgicamente, que se não fosse pela função de transporte de materiais de construção para as ilhas e outras áreas de difícil acesso, os saveiros provavelmente já teriam desaparecido. Neste hiato, as reminiscências de um passado recente ainda soam nos municípios de Maragogipe, Jaguaripe e “navegam” pelas águas da Baía de Todos-os-Santos.