Escuta clínica e diagnóstico de linguagem em tempos da pandemia de COVID-19: uma análise à luz da Clínica de Linguagem
Escuta Clínica; Diagnóstico de Linguagem; Pandemia de COVID-19; Medicalização; Clínica de Linguagem
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Introdução: A pandemia de COVID-19 instaurou uma crise sanitária global que produziu efeitos diversos, incluindo mudanças nas dinâmicas familiares, que impactaram o modo de relação das famílias com suas crianças pequenas em aquisição de linguagem. No campo da Fonoaudiologia, observou-se um aumento significativo da busca por atendimentos motivados por queixas de atraso na fala, frequentemente atravessados por discursos patologizantes e pela urgência por diagnósticos. Objetivo: Discutir os efeitos da pandemia de COVID-19 na trajetória de crianças em aquisição de linguagem, que chegaram à clínica fonoaudiológica com queixa de atraso de linguagem. Metodologia: Pesquisa de abordagem qualitativa e retrospectiva, com o uso de dados secundários de uma série de três casos, como estratégia metodológica para a produção dos dados. Foram analisados os prontuários e os diários clínicos de três crianças com idades entre 14 e 24 meses, atendidas em clínica privada entre 2021 e 2022. Os dados foram analisados com base no referencial teórico da Clínica de Linguagem. Resultados: Os dados revelaram que a pandemia intensificou o fenômeno da medicalização da infância, ampliando a busca por “rótulos” como o autismo e a apraxia de fala, o que contribuiu para a angústia materna e o sofrimento familiar. Diferentemente de perspectivas cognitivistas, nas quais os impasses linguísticos são atribuídos a déficits perceptuais pelo uso de máscaras, telas ou diminuição da exposição linguística, nesta pesquisa, a reflexão envolveu a escuta para a fragilização do laço e o "esvaziamento da presença” do outro, fundamentais para o "banho de linguagem" essencial à constituição subjetiva e da linguagem. A escuta clínica qualificada permitiu acolher a angústia materna de "insuficiência" e promover deslocamentos de posição das crianças em relação à língua e ao outro. Conclusão: Concluímos, à luz da Clínica de Linguagem, que o contexto pandêmico influenciou as trajetórias ao reforçar narrativas medicalizantes na infância, exigindo do clínico a sustentação do "não saber" diante do “enigma da fala”. A partir desta pesquisa, reafirmamos o compromisso ético com a singularidade, com as falas das crianças e com um fazer clínico que reconhece a inexistência de uma infância universal, resistindo ao imediatismo do diagnóstico diante da potência do encontro terapêutico.