MORRER MIL MORTES: a ontologia irrealizável de Marielle Franco
Marielle Franco. Feminismo negro. Afropessimismo. Luto político. Espectralidade.
A presente tese investiga as políticas de luto e as estratégias de resistências elaboradas pelo movimento de mulheres negras brasileiras diante do assassinato de Marielle Franco, compreendendo a morte não como fim da presença, mas como campo de agenciamento político e ontológico. A pesquisa parte do diálogo entre o pensamento negro radical, o feminismo negro e o afropessimismo, propondo uma leitura espectral da política, em que os mortos permanecem atuando na vida social. O objetivo central é compreender de que modo as lideranças de organizações de mulheres negras articulam a figura de Marielle Franco como fantasma, memória e força de mobilização coletiva, revelando tensões entre Estado, democracia e racismo estrutural no Brasil. O trabalho adota abordagem qualitativa e interdisciplinar, baseada em treze entrevistas em profundidade realizadas com militantes de diferentes regiões do país, filiadas à Articulação de Organizações de Mulheres Negras Brasileiras (AMNB). O corpus é analisado à luz de autores e autoras como Saidiya Hartman, Frank B. Wilderson III, João H. Costa Vargas, Osmundo Pinho, Angela Figueiredo e Christina Sharpe. Estruturalmente, o primeiro capítulo discute a “virada espectral” e define o luto como categoria política. O segundo examina o impacto do assassinato de Marielle e as formas de comoção e resistência coletiva. O terceiro aproxima as formulações do afropessimismo às produções teóricas brasileiras, mostrando como o pessimismo se converte em ética da sobrevivência. O quarto capítulo analisa as contradições do engajamento político das mulheres negras, suas estratégias de segurança, autonomia e disputa institucional. Conclui-se que o movimento de mulheres negras transforma a dor em linguagem de futuro, reposicionando a vida como primeira forma de política. A tese demonstra que, mesmo diante da morte social, as mulheres negras criam espaços de autogoverno e sustentam uma ontologia irrealizável — viva, insistente e coletiva.