Esta pesquisa analisa a rede sociotécnica de agentes ocultos presentes nos sites de cinco startups unicórnio brasileiras (QuintoAndar, Loft, iFood, C6 Bank e Wellhub) com o objetivo de desvelar práticas de vigilância digital e avaliar o desalinhamento entre discursos de transparência e operações técnicas efetivas. Fundamentada no neomaterialismo e na Teoria Ator-Rede, a investigação adota o protocolo proposto por Lemos (2020a), organizado nas etapas de modos, inventário, transdução e reagregação. O corpus empírico foi analisado mediante ferramentas especializadas (Ful.io, BuiltWith, Wappalyzer) e inspeção forense de código-fonte, complementadas por análise documental de políticas de privacidade e exame da cobertura midiática em dez portais especializados, totalizando 804.873 URLs. Os resultados revelaram média de 29,2 tecnologias de rastreamento por startup, com desvio padrão de 8,04, evidenciando que a Loft apresenta maior densidade com 40 tecnologias, seguida pelo iFood (34), C6 Bank (29), QuintoAndar (22) e Wellhub (21). Identificou-se predominância de ferramentas estrangeiras (95%) e presença do ecossistema Google em todos os casos. O estudo de caso sobre o Hotjar no QuintoAndar demonstrou configurações invasivas incluindo gravação completa de sessões, captura de teclas digitadas, anonimização desabilitada e gravação ativa em páginas críticas. Argumenta-se que essas práticas constituem uma arquitetura da opacidade, operando sob lógica de capitalismo de vigilância e materializando o colonialismo de dados, onde startups nacionais atuam como intermediárias locais na extração de valor da população brasileira para corporações transnacionais. A pesquisa contribui ao desenvolver os conceitos de opacidade estratégica e transparência performativa, demonstrando empiricamente que vigilância intensiva constitui racionalidade estrutural do modelo de negócios das plataformas digitais no contexto brasileiro, reconfigurando usuários em produtores involuntários na produção de excedente comportamental.